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14 de outubro de 2009

Poema: Um cogito


Qual é o trabalho forçado
de Adolf Hitler no inferno?
Pinta paredes? Cadáveres?
Fareja o gás de suas vítimas?
Terá que ingerir as cinzas
dos meninos calcinados?
Ou desde sua morte há de
beber sangue num funil?
Ou lhe martelam na boca
os dentes de ouro arrancados?
Ou sobre arames farpados
lhe concederão dormir?
Vão ver sua pele tatuada
nos abajures de adorno?
Ou negros mastins de fogo
dele se incumbem no inferno?
Deve de noite e de dia
em trégua andar com seus presos?
Ou morrerá pouco a pouco
sob o mesmo gás eterno?

Pablo Neruda

Poema: Amar sozinho alguém

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Amar assim é bom, muito bom
Ouvi dizer que faz bem
Mas não sei se é tão bom assim
Amar sozinho alguém

O amor emite ondas
E espera, paciente, por algum retorno
Mas quando elas não voltam
Ele se entristece e fica mudo

Até estes versos ficam vazios
Sem sentido, sem rima
Quando o corpo está junto
Mas a alma não se aproxima

O toque suave, quente
Esboça um movimento de carinho
Mas é interrompido, de repente
Por um ato ou palavra qualquer

E o jardim se torna frio
O beija-flor perde o sentido de direção
Pois o que antes eram tantas cores
Já não lhe chamam mais a atenção

Mas o amor é insistente, ainda sente
Faz o coração bater mais forte
E renova o sentimento que há na gente
Que há no mundo, que há em mim

André Ribeiro de Oliveira
Lavras/MG - 09/02/2004

Poema: Vagabundo



Eat, drink, and love; what can the rest avail us?
                                  Byron, Don Juan

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos, nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... Uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada...

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!...

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio,
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha,
Há de achar-me na Sé, Domingo, à missa.

Álvares de Azevedo