4 de setembro de 2014

O bem e o mal


"O conflito está por toda parte. Este é o século 20 e estamos cercados de conflitos. Como yin e yang, quente e frio, deus e o diabo: tudo é conflito. O universo é assim e, sem conflito, não temos vida. Mas os termos do conflito são vagos. Por exemplo, certo e errado, o que significam essas palavras? Quer dizer, o que significam de verdade; o que é absolutamente certo e o que é absolutamente errado? Poderíamos sentar e fazer uma lista. O que você diria que é errado? Você diria que é errado odiar? Talvez. Mas e em época de guerra? Em guerra, é certo odiar nossos inimigos. é certo matar nossos inimigos. As palavras 'certo' e 'errado', por si, não significam nada. Têm um cheiro de desinfetante de vigilância policial.

E o mal. Algumas pessoas parecem ter um inexplicável desejo de fazer o mal. Mas para quê? Temos como saber o que é o mal? Quais são os sinais do mal? O desejo de destruir é ruim - a destrutividade inexplicável e generalizada. mas nem isso é categórico, não é mesmo? A maior parte da história é sobre destruição, não sobre criação. São mantidos registros sobre guerras, sobre a decadência de civilizações, sobre assassinatos e mortes; sobre homens como Alexandre, o Grande, Napoleão, Hitler e outros que construíram impérios enormes com base em sua habilidade para destruir. Porém, de certa maneira, destruição é um tipo de criação. Quando um vândalo quebra uma cabine telefônica ou entalha seu nome na parede de um vagão do metrô, está deixando sua marca. Ele está, conscientemente ou não, tentando mostrar que existe e que tem a capacidade de afetar as coisas, de mudar as coisas. Violência destrutiva é uma maneira de dizer 'Veja, eu estou aqui'. É o jeito fácil. É a criação negativa. Criação positiva é muito mais difícil - requer paciência e talento. Esses jovens arruaceiros não tem paciência, claro. É muito mais fácil destruir do que pegar um bloco de pedra e, lenta e cuidadosamente, fazer surgir uma imagem - isso requer um artista. Violência é muito mais rápida e, para o arruaceiro, para o valentão, imagino que a violência seja mais gratificante porque é mais livre. Não há restrição, não há controle. Na violência, existe também essa ânsia por liberdade." 

Anthony Burgess

Trecho de um texto publicado originalmente na revista The Listener, em 28/12/1961, sob o título "The human Russians".

John Anthony Burgess Wilson (Manchester, 25 de fevereiro de 1917 — Londres, 22 de novembro de 1993) foi um escritor, compositor e crítico britânico. Prolixo e controverso, é lembrado principalmente pelo décimo oitavo livro, Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1962). Seus livros, críticas e resenhas são marcados por grande sátira social.